Governo tenta barrar na Câmara e no STF pacote de impacto fiscal aprovado pelo Senado

Texto aprovado pelos senadores voltou para análise dos deputados; Planalto vê risco fiscal e avalia reação caso proposta avance sem mudanças.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator do projeto de renegociação de dívidas rurais no Senado.Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado.

O governo federal tenta reorganizar sua articulação no Congresso após a aprovação, pelo Senado, do projeto que autoriza a criação de uma linha especial para renegociação de dívidas rurais. O texto voltou para a Câmara dos Deputados e passou a ser tratado pelo Palácio do Planalto como uma das principais propostas de impacto fiscal em tramitação neste momento.

A matéria prevê condições especiais para produtores rurais afetados por eventos climáticos, com possibilidade de uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal e de outras fontes autorizadas. O limite global previsto é de R$ 30 bilhões. O financiamento poderá ser usado para quitar dívidas de crédito rural, empréstimos e Cédulas de Produto Rural contratados até 30 de junho de 2025.

A preocupação do governo está no alcance da proposta aprovada pelo Senado. Integrantes da base governista avaliam que o texto ficou mais amplo do que o desenho negociado inicialmente e pode gerar pressão adicional sobre as contas públicas. Por isso, a estratégia do Planalto é tentar alterar a proposta na Câmara antes de uma eventual votação final.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, passa a ter papel decisivo no andamento do projeto. Como o Senado modificou a matéria, os deputados precisarão analisar novamente o texto. A Câmara poderá manter a versão aprovada pelos senadores, fazer alterações ou adiar a votação.

O líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta, afirmou que o Executivo buscará diálogo para construir uma alternativa com equilíbrio fiscal. A posição do governo é que medidas com impacto bilionário precisam indicar fonte de custeio e respeitar os limites orçamentários.

Do outro lado, defensores da proposta argumentam que o setor agropecuário enfrenta dificuldades causadas por perdas climáticas, juros elevados e endividamento acumulado. Para esse grupo, a renegociação é necessária para evitar inadimplência, preservar a produção e dar fôlego financeiro a produtores e cooperativas.

A disputa também pode chegar ao Supremo Tribunal Federal. O ministro Gilmar Mendes defendeu publicamente que propostas legislativas capazes de criar despesas devem vir acompanhadas de estimativa de impacto financeiro e indicação de fonte de custeio. A manifestação reforçou o argumento usado por integrantes do governo para contestar medidas aprovadas pelo Congresso sem previsão clara de compensação.

Apesar disso, ainda não há decisão judicial sobre o caso. O que existe, até o momento, é uma disputa política e fiscal em torno do texto. Caso a proposta avance na Câmara sem mudanças consideradas suficientes pelo governo, o Planalto poderá recorrer a veto presidencial, nova negociação com parlamentares ou questionamento no STF.

Além da renegociação das dívidas rurais, outras propostas com impacto nas contas públicas também acenderam alerta no Executivo. O governo tenta evitar que medidas de forte apelo político avancem sem cálculo financeiro detalhado, especialmente em um cenário de pressão por controle de gastos.

O próximo passo está nas mãos da Câmara. A forma como Hugo Motta conduzirá a tramitação será determinante para definir se o projeto será aprovado como saiu do Senado ou se passará por uma nova rodada de negociação com o governo.

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