
Na quarta-feira de cinzas, enquanto muitos já se despediam do carnaval, Madre de Deus ainda vibrava com o desfile do bloco “Os Vagabundos”.
Com 220 integrantes e sua marca registrada de alegria e simplicidade, o bloco seguiu mantendo viva uma tradição que começou há 25 anos de maneira inusitada.
Com abadá, bermuda e chapéu, eles fizeram seu desfile característico, parando de bar em bar e resgatando o espírito mais autêntico do carnaval.
A origem: um jogo de dominó e uma provocação inusitada
O bloco surgiu de forma despretensiosa, como costuma acontecer com tantas tradições carnavalescas.
A história do bloco começou no ano 2000, em frente ao antigo Bar de Capanema, hoje lembrado com saudade pelos moradores. Um grupo de amigos se reunia no local frequentemente para jogar dominó.
Era um ritual simples: amigos, risadas, algumas provocações e a descontração típica de quem aproveita os pequenos prazeres da vida.
Foi durante uma dessas tardes de dominó que um desentendimento mudaria o formato das resenhas entre amigos.
Em um momento de brincadeira, um dos amigos mexeu com a filha de uma vizinha, causando desconforto para todos os presentes.
A mãe dela teria ficado indignada, não poupou críticas ao grupo e entre outros insultos sentenciou: “vagabundos!”.
A palavra proferida de forma exasperada, poderia ter encerrado o episódio em uma nota amarga, foi recebida com bom humor e rapidamente transformada em inspiração.
“A gente tava lá com o grupo todo: ‘Miguel Couro Seco’, Livino, uma raça. Sempre era ela que fazia uma feijoada, moqueca e Miguel achou de bulir com a filha. E a mãe veio se revoltou, tirou dos cachorros e jogou em cima de todo mundo, de vagabundo em diante. Aí, ao chegar do trabalho… Eu estava trabalhando, dia de sábado, aconteceu que Zeinho que Deus o bote em bom lugar, me chamou pra fundar o bloco: ‘vamos fundar um bloco?’- Eu disse: ‘que bloco?!’ ele respondeu: ‘o bloco dos vagabundos!'”, diz Jojó, um dos responsáveis pelo bloco.
Ele acrescenta que o bloco “Os Vagabundos” foi para as ruas no primeiro ano com 18 integrantes.
Depois subiu para 38, depois 80, e assim foi crescendo até chegar aos 220 foliões neste ano.
Bar de Capanema e à memória do passado
Embora o Bar de Capanema tenha fechado suas portas há muitos anos, ele segue sendo lembrado como o berço do bloco.
Essa conexão com o passado dá ainda mais significado ao desfile.
Para quem acompanha o bloco desde os primeiros anos, “Os Vagabundos” representam mais do que uma festa: são o reflexo de uma época em que as amizades se formavam ao redor de um jogo de dominó e as melhores histórias surgiam de situações inesperadas.
Carnaval raiz: a essência de “Os Vagabundos”
O desfile deste ano reafirmou a importância de “Os Vagabundos” como um dos blocos mais autênticos de Madre de Deus.
Com as paradas nos bares, o carro-pipa e a energia dos foliões, o grupo mostrou que não é preciso luxo para fazer um carnaval memorável.
Ao som de uma banda de fanfarra, o bloco, que começou como uma brincadeira entre amigos, hoje é parte da história de Madre de Deus e um exemplo de como as melhores tradições podem surgir dos momentos mais simples. E, ao que tudo indica, “Os Vagabundos” ainda têm muitos carnavais pela frente.
Um formato único: de bar em bar e com carro-pipa
Diferente dos blocos que seguem o trajeto tradicional, “Os Vagabundos” têm um percurso especial que os diferencia em Madre de Deus.
Desde sua fundação, o bloco nunca seguiu o trajeto até o Centro da cidade pela Rua Francisco Leitão.
Em vez disso, os foliões mantêm a tradição de passar de bar em bar, transformando cada parada em uma festa à parte.
O bloco saiu da Nova Madre de Deus, fazendo o percurso inverso em direção a Deraldo Araújo Bento, seguiu pelo Apicum. Eles param, bebem, conversam, tomam banho no carro-pipa, depois continuaram o percurso pela 21 de abril até o Centro da cidade.
O encerramento ocorre na Nova Madre de Deus, local onde o bloco surgiu.
A simplicidade que conquistou a cidade
Uma das características mais marcantes de “Os Vagabundos” é sua simplicidade.
Os integrantes desfilam com o tradicional abadá do bloco, bermuda e chapéu, criando um visual leve e descomplicado.
É essa simplicidade que atrai cada vez mais pessoas que acompanham o bloco pelas ruas da cidade na quarta-feira de Cinzas
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