“Cegonhas da Noite”: adotados buscam origem após rede informal de adoções em Feira de Santana

Grupo atuou por décadas entregando recém-nascidos a famílias interessadas em adotar; sem registros oficiais, adultos tentam reconstruir a própria história.

Roupas de bebê preservadas por pessoas que afirmam ter sido adotadas por meio do grupo conhecido como “Cegonhas da Noite”, em Feira de Santana. Foto: Arquivo pessoal.

Numa tarde do fim dos anos 1980, uma mulher se aproximou de uma casa em Feira de Santana e deixou uma cestinha na porta. Dentro, havia um recém-nascido e um bilhete. Sem registro formal, sem processo judicial, sem explicações completas. A criança viria a se chamar Lausanne. Décadas depois, ela ainda procura saber de onde veio.

A história de Lausanne de Oliveira Vicentin, hoje analista administrativa de 36 anos, é uma entre centenas atribuídas ao grupo conhecido como “Cegonhas da Noite” — uma rede informal, formada por ao menos quatro mulheres em Feira de Santana, que durante décadas intermediou a entrega irregular de bebês a famílias interessadas em adotar.

Segundo reportagem publicada pelo jornal A Tarde em 2006, o grupo teria encaminhado cerca de 1.100 recém-nascidos ao longo de aproximadamente 20 anos. Não há, porém, número oficial que confirme a dimensão exata da prática.

O funcionamento era discreto. Famílias interessadas em adotar não faziam, necessariamente, contato direto com as mulheres envolvidas. O pedido circulava por meio de conhecidos, indicações e conversas informais. Quando um bebê era entregue, as integrantes do grupo escolhiam uma família considerada apta a recebê-lo, a partir de critérios próprios e sem acompanhamento judicial.

Os bebês eram deixados, muitas vezes, em caixas ou cestinhas nas portas das casas escolhidas. Em alguns casos, segundo relatos de pessoas adotadas, havia bilhetes com informações básicas. Em outros, quase nada restou além da memória de quem recebeu a criança.

Na época, parte da população via a atuação das Cegonhas da Noite como uma forma de ajuda social, especialmente diante da vulnerabilidade de mulheres que diziam não ter condições de criar os filhos. O problema é que, fora dos trâmites legais, a prática deixou lacunas profundas: origem biológica desconhecida, ausência de documentação completa e dúvidas sobre o consentimento real das mães.

A entrega legal de uma criança para adoção não é crime. A legislação brasileira permite que uma gestante ou mãe manifeste o desejo de entregar o filho à adoção, desde que o procedimento seja acompanhado pela Justiça da Infância e da Juventude, com proteção à mulher e à criança. O que não pode ocorrer é a entrega informal, sem autorização judicial, ou a retirada de uma criança sem consentimento livre e comprovado da mãe biológica.

É justamente nessa fronteira que a história das Cegonhas da Noite permanece marcada por dúvidas. Há relatos de mulheres que teriam entregado os filhos por não terem condições de criá-los. Mas também existem histórias de adotados que questionam se a mãe biológica pôde, de fato, decidir livremente.

Lausanne afirma que a versão que chegou até sua família adotiva envolve uma mulher em situação de vulnerabilidade. Segundo o relato, sua mãe biológica trabalhava como empregada doméstica e teria sido pressionada a entregar a filha. A informação, porém, não tem comprovação documental conhecida. Sem processo judicial, sem registro formal da entrega e sem investigação concluída à época, a resposta permanece em aberto.

Após publicar sua história nas redes sociais, Lausanne passou a ser procurada por outras pessoas que também afirmam ter sido adotadas por meio das Cegonhas da Noite. Hoje, um grupo reúne 19 adultos em busca de pistas sobre suas famílias biológicas.

O trabalho de reconstrução é difícil. Muitos não sabem o nome da mãe biológica, o hospital onde nasceram ou a pessoa que intermediou a entrega. Em vários casos, a busca depende de relatos orais, lembranças de familiares adotivos, datas aproximadas e poucas informações preservadas ao longo do tempo.

Entre os adotados está também Rodrigo Koala, tatuador de Feira de Santana reconhecido nacionalmente. Ele relata ter sido entregue ainda bebê na porta da casa do pai por meio do grupo. Koala afirma ter uma visão positiva da própria história e diz que a adoção mudou sua vida, mas reconhece que nem todos tiveram a mesma experiência.

A rede informal deixou de atuar após pressão de um juiz em Feira de Santana, que teria ameaçado prender pessoas envolvidas na prática. A interrupção, no entanto, não resolveu o problema criado ao longo dos anos: centenas de pessoas cresceram sem acesso claro à própria origem.

Mais do que uma história sobre adoção, o caso das Cegonhas da Noite expõe uma falha antiga na proteção de crianças, mães biológicas e famílias adotivas. Onde faltou acompanhamento institucional, surgiram soluções informais. Algumas resultaram em lares afetivos e histórias de acolhimento. Outras deixaram perguntas que atravessaram décadas.

Para Lausanne e outros adotados, a busca não é apenas por documentos. É por identidade, memória e direito de saber de onde vieram.

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