Conheça a 1ª mulher indígena eleita deputada federal

Ela foi eleita deputada federal e é a primeira mulher indígena a ocupar o cargo em mais de 194 anos de história da Casa.

© Reprodução/Facebook/JoeniaWapichana

“Todos têm uma missão na vida. A minha é defender os direitos coletivos indígenas”, escreveu a advogada Joenia Wapichana, de 43 anos, em sua conta no Instagram, no sábado (6), antes da definição das eleições para o Legislativo em 2018, realizadas no último domingo (7). Hoje, segunda-feira, 8 de outubro, ela pode dizer que sua missão ganha um novo capítulo: com mais de 8 mil votos, ela foi eleita deputada federal e é a primeira mulher indígena a ocupar o cargo em mais de 194 anos de história da Casa.

“Wapichana”, que ela carrega no nome, representa sua origem e a cultura de seu povo -que tem cerca de 13 mil indivíduos e vive no vale do rio Tacutu, região de serras mais a leste de Roraima. Esta é a segunda vez que um indígena chega à Câmara dos Deputados. O primeiro foi Mário Juruna, pelo PDT, em 1982. “Eu nasci para morrer, eu nasci para brigar. Não nasci para ser expulso. Por que estou dentro do Brasil que é do índio… Eu nasci para isso”, disse Juruna, em discurso na Câmara em 1982. Ele morreu aos 58 anos, por consequências de diabete crônica.

“Nós somos acusados de ladrão dentro de nossa própria terra. Somos caluniados, discriminados e tem que se colocar um fim nisso. Cabe ao STF aplicar o que já falamos há muito tempo”, disse a candidata eleita pela Rede Sustentabilidade, ao discursar em plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2008, durante a homologação que definiu os limites contínuos da Reserva Raposa Serra do Sol.

Na ocasião, Joênia também foi a primeira mulher indígena a fazer uma sustentação oral no plenário do STF. “Será a primeira sustentação que eu faço, e logo no Supremo”, disse a advogada à época, pouco antes de se aproximar do microfone. Ao iniciar sua fala, ela marcou seu lugar ao afirmar que foi a primeira mulher indígena a se tornar advogada no Brasil, e audiências já eram costumeiras, mas aquela seria diferente. “Eu serei a voz dos índios na mais alta Corte do Brasil”, resumiu.

O aumento da representação feminina

A bancada feminina no Congresso Nacional cresceu nestas eleições. Na Câmara dos Deputados, foram eleitas 77 parlamentares do total de 513, de acordo com dados finais da Justiça Eleitoral, e Joênia está entre elas. Em 2014, eram 51.

No Senado, 7 representantes femininas tiveram vitória nas urnas. É o mesmo número de eleitas em 2010, última eleição para duas vagas na Casa. Em 2014, onde cada estado tinha uma vaga na disputa, outras 5 ganharam o pleito.

Até então sua vida pública não aspirava uma candidatura. Mas isso não significa que, enquanto mulher indígena e advogada, ela não fizesse uma defesa política e ativa pelos direitos de seu povo. Para levar seu ativismo a outros patamares, ela escolheu o campo do direito para estudar. E, sim, Joenia é a primeira mulher indígena formada em Direito no Brasil. Em 1997, ela concluiu seus estudos na Universidade Federal de Roraima (UFRR). Hoje, ela é mestre pela Universidade do Arizona, nos Estados Unidos.

À época, no julgamento do STF, a advogada representou as comunidades indígenas Barro, Maturuca, Jawari, Tamanduá, Jacarezinho e Manalai. “Muitas das comunidades de Roraima perguntam para a gente: ‘o que nós cometemos para ser julgados?'”, disse. “Nós somos acusados de ladrão dentro de nossa própria terra. Somos caluniados, discriminados e tem que se colocar um fim nisso. Cabe ao STF, aplicar o que já falamos há muito tempo.”

“Somos cerca de vinte formados no País inteiro, e apenas sete têm carteira da Ordem dos Advogados do Brasil”, informou Joenia, em 2008. Em seu discurso, ela também reconheceu que “advoga em causa própria” a maior parte do tempo já que, desde 1999, trabalha como coordenadora do departamento jurídico do Conselho Indígena de Roraima (CIR): “Meu trabalho eu faço por amor, porque minha família e meu povo precisa disso. Estou defendendo uma terra que é minha, para a qual pretendo voltar depois desse tempo na cidade”, afirmou.
Indígenas nas universidades

Indígenas nas universidades

De 2008 até hoje, segundo a Funai, o número de ingressantes e concluintes indígenas nas universidades públicas e privadas do país aumentou significativamente entre 2016 e 2015. De acordo com dados mais recentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o número de alunos ingressantes cresceu 52,5% e o de concluintes, 32,18%.

Joênia vem de uma família de 8 irmãos, e a maior parte, inclusive seu pai, ainda vive na tribo. Ela mora na capital, Boa Vista, com o marido, e é de mãe de Jackson e Cristina. Joênia afirma que tenta manter as tradições dentro de casa e, inclusive, ensinar a seus filhos sua língua nativa, para que eles não esqueçam de onde vieram — e o que ainda podem conquistar. “Eu mostrei a ela [Cristina] que ser índio é orgulho, que não precisamos esconder nossa identidade nem nossa honra”, declarou.

Em 2008, a advogada não contou para os pais que falaria diante da mais alta corte brasileira em defesa de seu povo. “Minha mãe tem medo quando eu venho a Brasília, fica doente porque acha que tem muita gente me querendo mal. Então eu não contei para ela não se preocupar”, disse à época. Porém, seus filhos e o marido sabiam desde o começo que ela defenderia perante um País inteiro a permanência da terra com os índios.

Para que ela saísse como candidata a deputada federal houve uma assembleia geral dos povos indígena de Roraima, e um financiamento coletivo foi realizado. Até o final do período de doações, 11 pessoas contribuíram e R$ 2.520 reais foram arrecadados. A meta era R$ 30 mil. Joênia é filiada à Rede Sustentabilidade, partido fundado por Marina Silva, e faz parte do movimento RenovaBR, que impulsiona candidaturas para renovar o quadro de políticos no Brasil.

Hoje, 10 anos depois de falar pela primeira vez na corte mais alta do Brasil, não só sua família, mas um País inteiro está sabendo que há uma mulher que defenderá os direitos coletivos indígenas, o desenvolvimento sustentável de Roraima, que é contra a corrupção, a favor da transparência, ética e pela defesa da participação popular. Com informações do HuffPost.

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